• Do Rio pra cá

O som do silêncio

Atualizado: 6 de Out de 2019


Sempre gostei de viajar, no início da década de 90, eu estava em Berlim, era um momento histórico. Caia o muro que por mais de 40 anos dividiu uma nação, um continente. Era o fim da guerra fria, eu estava lá e queria mergulhar naquela história. Claro que eu estava com medo, ainda não era muito seguro atravessar aquela ponte, sim, entre as duas fileiras de muro, havia uma ponte. Santa ponte. Guardei o medo para não ouvir seus conselhos e fui conhecer de perto um lugar parado no tempo. A cada passo pensava nas pessoas que morreram tentando fazer aquele caminho. Eu era observada por homens que ainda ocupavam guaritas no alto. Pensei em voltar, de repente não fazia sentido entrar em um lugar de onde tantos tentaram sair, mas segui em frente, bem de vagar, sozinha.

A sigla DDR que pode ser vista no muro, atrás de mim, significa em alemão: Deutsche Demokratische Republik, era a área de ocupação Soviética. Popularmente chamada Alemanha Oriental.

Ao chegar na velha Berlim, um susto. Janelas concretadas para o lado Ocidental; carros que não eram só antigos, eram velhos. Senti fome e tive dificuldade para comer, no mercado vazio, só encontrei água nas prateleiras. Nenhuma padaria, restaurante, nada. Na antiga estação de trem havia uma rede suspensa para que os pedaços do teto não caíssem sobre os viajantes. Pude ver o céu através das frestas do telhado que se desmanchava, era cinza, como tudo mais, ali. A velha rede rasgada, guardava os pedaços de uma Alemanha irreconhecível, empobrecida, triste, marcada por uma guerra antiga, mas que estava presente na poeira, no silêncio, nos tijolos nas janelas, no olhar desconfiado dos mais antigos, que não puderam dizer adeus. Já o olhar dos jovens, bem, era o meu olhar, curioso e cheio de esperança. Essa chama, apesar de tudo, estava lá. Passei o dia em 1949. Foi muito triste e solitário. Mas aprendi muito com tanto silêncio. ​

Essa sentadinha bem no meio da escadaria, sou eu.

Palácio Reichstag, Alemanha. Aqui foi proclamada a a república, em 1918.Entre 1919 e 1933, o Reichstag foi a sede do parlamento da República de Weimar. Incendiado nos anos 30, ficou fechado por décadas. Voltou a ser a sede do Parlamento, após a reunificação, nos anos 90. Fica muito, muito perto de onde foi erguido o muro de Berlim. A frase "Dem deutschen Volke" - "Ao povo Alemão", está gravada lá desde 1916. Considero um lugar emblemático.

Sachsenhausen - Em minhas andanças pelo mundo, como qualquer pessoa, também gosto dos lugares bonitos e dos sabores exóticos, mas também tento me modificar, crescer um pouquinho a cada novo caminho. Sachsenhausen, foi uma de minhas experiências mais difíceis e transformadoras. Passei algumas horas em um dos mais antigos campos de concentração da Alemanha. Uma imersão em um dos mais trágicos capítulos da história recente da humanidade. Sai desse lugar frio e aparentemente vazio, absolutamente transformada. Foram amplificados meu respeito pelo próximo, empatia e compaixão. É muito perto de Berlim. Ultima parada do trem S1, sentido Oranienburg.

Vendo as imagens da Síria, ouvindo os grito da Síria, hoje, me lembrei daquela Berlim parada no final da segunda guerra mundial. Não aprendemos nada? Minha voz é tão potente quanto o zumbido de uma abelha perdida numa grande metrópole, mas não posso me calar.

Imagem de vídeo divulgado pelo grupo de defesa civil sírio Capacetes Brancos mostra crianças supostamente atingidas pelo bombardeio com armas químicas do governo do país contra rebeldes na cidade de Douma - Capacetes Brancos/AFP

O único caminho para a humanidade, é a ponte do entendimento. O sofrimento de um cidadão sírio, é o meu sofrimento. A humanidade é uma só. O planeta é um só. Que Deus abençoe as mãos que constroem pontes. Que Deus tenha piedade de nós.

Marta Francez é formada em Letras e Comunicação Social. Trabalhou como repórter e roteirista em duas das maiores emissoras de TV aberta do Brasil. Uma viajante nata que já morou e estudou nos Estados Unidos e que por mais de uma vez jogou uma mochila nas costas e percorreu a Europa de trem, por meses. Atualmente vive entre Rio de Janeiro e Curitiba. Casada há vinte anos e mãe depois dos 40 ela está produzindo sua primeira série de livros infantis.

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