top of page
  • Foto do escritorBete Antunes

Portugal: xenofobia com brasileiros


Há quase quatro anos, resolvi morar em Portugal. Meu marido veio empregado na área de TI e juntos decidimos viver por aqui. Com a dupla cidadania e muito estudo sobre o país, desembarcamos em terras lusitanas.


Atualmente, com a alta sem freio dos alugueis, principalmente na capital, moramos em Leiria (foto abaixo), a uma hora e meia de carro de Lisboa. Mas a pergunta que não quer calar é: já sofremos xenofobia?

Sim, já sofremos. O caso da brasileira que, no início de novembro, foi insultada no aeroporto da cidade do Porto, por uma senhora portuguesa, virou assunto não só na mídia e nas redes sociais como na nossa roda de amigos.


Vai para sua terra, sua porca. Eu sou portuguesa de raça, vociferou a tal senhora portuguesa no aeroporto e foi gravada pela vítima.


Mandar os brasileiros “voltarem para a sua terra” é mais comum do que se imagina. No mês passado, o músico brasileiro Pierre Aderne, que trocou o Rio de Janeiro por Lisboa, filmou as frases xenófobas que ouviu de um taxista na capital portuguesa.


Porco, volta para a tua terra”, disse o motorista. O artista também postou o vídeo nas redes sociais e perguntou: “Até quando vamos fingir que os fascistas do colonialismo deixaram de existir? Até quando Portugal?”.


Norma, brasileira de 38 anos e moradora de Coimbra, contou ao Do Rio Pra Cá que já passou por vários episódios de xenofobia. E frisou que as mulheres sofrem ainda mais.

“À mulher brasileira é atribuída características e uma identidade racial que estão no estereótipo de “ser brasileira”. Conta que foi xingada na rua logo que chegou a Portugal. “Não vi que vinha um carro quando fui atravessar o sinal. Os homens que estavam no carro gritaram “tinha que ser brasileira”. Eu levei um susto!”

Os telhados da cidade do Porto
Os telhados da cidade do Porto

Norma disse ainda que fica irritada quando, para acalmar os ânimos, as pessoas dizem que “não é nada pessoal”. “É óbvio que é pessoal. Não é íntimo e privado porque as pessoas não me conhecem, mas é pessoal, é pela nacionalidade que eu carrego. A pessoa que não se vê nessa posição de alvo de xenofobia, ela realmente tem uma faixa nos olhos e um problema de identidade muito grande”.


Ela apontou também que o governo português “ainda não lida bem” com questões que passam pelos direitos dos brasileiros que vivem em Portugal. Atualmente, são 400 mil brasileiros legalizados por aqui.


“Nós somos muitos, os brasileiros são muitos para não serem mais ouvidos, para serem ignorados. Não há desculpa para que certas situações sejam normalizadas, que se tornem invisíveis tanto para o governo quanto para a sociedade. Aliás, uma sociedade que categoriza imigrantes de duas maneiras: os bons e os não tão bons. Os imigrantes que o país precisa para crescer e os que não são ‘necessários’. Categorizar pessoas é uma coisa racista, fascista”, criticou.


E concluiu:

“Acho que os portugueses olham muito a imigração como uma necessidade, porque eles próprios emigram por necessidade. Eles têm um histórico de se o país está ruim, “então vou emigrar para França”, por exemplo. Sempre tem a ver com o dinheiro. Não significa que esse problema não exista nos casos brasileiros, mas é o tal olhar do colonizador para o colonizado, de se achar superior. Não é preciso estar numa situação ruim para escolher uma boa. Posso estar bem no Brasil e, mesmo assim, ter vontade de trabalhar e morar fora. E eu escolhi viver em Portugal. Não sou de outra terra, de outro planeta, eu sou uma cidadã do mundo. Quero ser respeitada”.

A beleza de Sintra
A beleza de Sintra

Assim como Norma, Luísa, de 32 anos, disse que também sofreu seu primeiro episódio de xenofobia quando simplesmente cruzava a rua em Lisboa.

“Éramos um grupo, atravessamos na passadeira - faixa de pedestre, como dizem os portugueses -, o motorista não parou e quase nos atropelou. Quando reclamamos, ouvimos o “volta para sua terra”. E ele que estava errado, porque aqui os carros são obrigados a parar para o pedestre passar”, frisou Luísa.


Ela revelou que essa luta contra a xenofobia tem mexido até com sua autoconfiança. “As coisas que eu enfrento no dia a dia, no meu trabalho.... Tem sempre alguém atrás de mim me corrigindo, vendo se eu estou escrevendo certo, não têm tolerância com o português do Brasil”, desabafou. “Às vezes, acabo ficando calada em público, em algum evento, porque fico intimidada ao falar e saberem que sou brasileira”.


Seis anos depois de viver além-mar, Luísa admitiu que pensa em deixar o país.


“Ser imigrante em qualquer país já é duro, mas ser imigrante brasileiro em Portugal é especialmente duro. Já morei nos Estados Unidos e no Canadá. Quando eu falava que era do Brasil, via que as pessoas tentavam achar um ponto em comum comigo para dar continuidade a uma conversa. Falavam do futebol, da comida, das praias e com um olhar de curiosidade. Em Portugal, você falar que é do Brasil é você se sentir inferior e isso me faz questionar se quero continuar aqui”.

Praia de Nazaré
Praia de Nazaré

Joana, de 44 anos, disse que os filhos, agora adolescentes, já sofreram xenofobia na escola pública onde estudam em Lisboa.


“Meu filho mais velho já me contou que a senhora da cantina nunca atendia ele enquanto tivessem outros alunos portugueses tentando comprar o lanche. E, na turma do meu caçula, uma professora repreendeu crianças que estavam escrevendo ‘em brasileiro’ nos textos, nas respostas das provas. Que isso seria corrigido e descontado o ponto como erro”.


Rosa, de 63 anos, também contou que foi vítima da intolerância ao imigrante. Ela estava dentro de um loja de produtos chineses – e, há muitas em Portugal - quando começou a escutar um homem gritando em sua direção, em Lisboa, onde reside:


“Eu estava dentro da loja e um senhor começou a gritar da calçada. Ele falava: ‘sai daí, sai daí’. Eu olhei para um lado, olhei para outro e vi que era comigo. Ele continuou: ‘sai daí, volta pra sua casa’. Aí eu perguntei a ele: 'por que o senhor está me faltando o respeito?'. Fui para o caixa e ele continuou a gritar. Então, comecei a falar alto também e dizer que eu ia chamar a polícia. Ele foi embora. Acho que com um homem, ele não faria isso. Aqui é um país bem machista também”.


É bom ressaltar que nem todos os portugueses são xenófobos, seria errado escrever isso. É um povo acolhedor e educado. Mas o aumento do número de brasileiros por aqui, infelizmente, fez o ódio aos estrangeiros crescer.


Torre dos Clérigos na cidade do Porto
Torre dos Clérigos na cidade do Porto

Se você for vítima de xenofobia - artigo 240 do Código Penal português, com pena de seis meses a cinco anos de prisão -, envie o ocorrido para o site cicdr@acm.gov.pt, da Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR).


Ah, e qual foi o meu caso? Em uma ida a um hospital público, onde não fui atendida depois de muitas horas de espera – agora, temos o seguro saúde - ouvi que caso eu estivesse insatisfeita....


Adivinhem o final da história?


OBS. Todos os entrevistados ganharam nomes fictícios.

Fotos: Acervo Pessoal


Continue a seguir nosso time também no Instagram e no Facebook.


Elizabete Antunes é jornalista e mora há três anos e meio em Portugal. Depois de viver dois anos em Lisboa, se mudou para Leiria, no centro do país, a uma hora e meia da capital. Trabalhou em jornais como O Globo e Jornal do Brasil, nas revistas Quem, Contigo! e Veja Rio e no site Vipei!

98 visualizações1 comentário

Posts recentes

Ver tudo

1 коментар


bomhumorlhm
16 лист. 2023 р.

Europa não conseguiu manter a qualidade de vida da década 60 do XX nesse início do XXI. Então volta-se para todos que ameaçam pegar um pouco do que resta.

A Segunda Guerra já, já, fará 100 anos. Atuais gerações nem sabem mais o que é nazismo, fascismo, salazarismo, etc. Quem é Anne Frank? Tem casa dela lá em Amsterdam e é só o que sabem. Estão perdidos. A xenofobia vai piorar. C'est lá vie!


Вподобати
bottom of page