• Do Rio pra cá

10 dias de retiro espiritual na Tailândia

Atualizado: 6 de Out de 2019


A busca permanente da impermanência - uma viagem interna na Floresta Tailandesa

Crédito: Ju Ribeiro / @donajulha

Escrever, para mim, sempre foi algo sagrado. Sagrado no sentido de muito estimado, verdadeiro. Desde que fui convidada pela querida Sonaira para escrever novamente aqui no blog Do Rio pra Cá, se passaram três meses. Demorei para elaborar esse texto, e não foi por falta de tentativas. Parei para analisar o porquê dessa paralisia criativa. Reli meu último texto aqui no site e percebi quanta coisa mudou na minha vida desde então. O formato de vida que achava que seguiria para sempre, se alterou novamente. E outra vez, deixei o campo para voltar à cidade.

Tudo mudou: Rio de Janeiro, vida de produtora, muitas noites em claro. Quando percebi que não estava mais vivendo daquele modo nômade e em meio a natureza, quando escrevi em janeiro do ano passado, simplesmente não conseguia desenvolver minha escrita. Então, que me lembrei de um dos três principais princípios budistas: anicca ou impermanência. Minha autocobrança afrouxou e finalmente meu texto fluiu. E é sobre o tempo que passei no monastério budista Suan Mohkk em Chaiya no sul da Tailândia, praticando mindfulness, que vou contar aqui. Foram 10 dias de retiro espiritual na floresta da Tailândia , imersa num cronograma intenso de yoga e meditação Anapanasati, que significa atenção plena na respiração.

A Ásia, sem dúvidas, mudou minha forma de ver o mundo e, principalmente, a mim mesma e entendi a importância da permanência. Parece contraditório começar o texto falando sobre a impermanência e logo depois ressaltar o valor da permanência, porém me refiro aqui a permanecer no que diz respeito ao espaço e, principalmente, ao espaço interno.

Foi através das minhas andanças que percebi que viajar é um tempo para um encontro consigo mesmo, em outros territórios. Não adianta viajar para fugir, você descerá do avião e encontrará você te esperando no desembarque.

Crédito: Ju Ribeiro / @donajulha - Entrevistas com os monges - ao fundo a sala de jantar

A proposta desse retiro é aprender a cessar os turbilhões do pensamento e a desenvolver a atenção plena em tudo o que fizer. Ou seja, atingir o estado de Buddha, viver somente o momento presente.

O monastério fica num paraíso. No meio de uma floresta com árvores gigantescas e piscinas naturais de água termal quentinha e azul. Lagartos gigantes, pássaros coloridos, escorpiões, cobras azuis e aranhas compartilhavam conosco aquele pedacinho de céu. O hall de meditação principal era um salão todo aberto com colunas altíssimas de frente para um lago. A área das refeições era também aberta e víamos macacos enormes pulando nas árvores enquanto entoávamos a oração antes de começarmos a ingerir o alimento. Era sempre uma hora preciosa. Apenas duas refeições eram servidas durante o dia e aprendíamos ali a desenvolver atenção plena a cada garfada. Minha relação com a comida nunca mais foi a mesma.

Cheguei no monastério um dia antes para as inscrições. Brenda, uma ex-viajante que há 10 anos vivia uma vida monástica, mas não era propriamente uma monja, era responsável pelos dormitórios dos alunos. Ela nos deu as instruções sobre como deveríamos proceder nos próximos dias e naquela noite. Os homens possuíam dormitórios separados das mulheres. Silêncio era a base. Claro que se estivéssemos com alguma dúvida super relevante, poderíamos falar com as monjas responsáveis pelas mulheres, mas era extremamente recomendado que não nos comunicássemos entre nós, o que cumpri fielmente.

Abri a porta do meu dormitório e lá estava minha cama, uma mesa de madeira com um bloco também de madeira, o que vinha a ser meu travesseiro e uma mosquiteira. No teto, um pequeno morcego e na parece um gecko (pronuncia-se guêco), uma espécie de lagartixa gigante e colorida. Eles seriam meus companheiros de quarto durante todo o processo.

Free Photo Flickr

Acordava todos os dias às quatro horas da manhã com o sino que tocava pontualmente durante os dez dias de retiro. No início, sentia muito sono, mas logo me acostumei com a rotina que permaneceu a mesma, exceto pelo nono dia em que teríamos que viver exatamente como um monge: com apenas uma refeição e longas horas de meditação ininterrupta. Todos os dias éramos responsáveis pelas funções do monastério, desde arrumar a cozinha até limpar os banheiros. Eu fiquei encarregada da limpeza diária do chão de uma das salas de meditação com mais três meninas.

Crédito: Ju Ribeiro / @donajulha - Sala de Jantar onde fazíamos nossas refeições diárias

Sitting Meditation

Essa era a hora em que não havia para onde fugir: eu, minhas pernas cruzadas e a atenção plena na minha respiração. "Foca na respiração para cessar a piração" era o mantra que eu criei para mim mesma. Ali, não interessava se eu estava na Tailândia ou no Marrocos, eu estava comigo mesma. No início não é fácil, no meio também não é e até hoje, nas minhas meditações diárias, não posso afirmar que é um processo simples. Aceitar-se com toda a sua plenitude e isso inclui suas sombras, não é fácil. A mente quer arrumar mil desculpas para te tirar dali, mas permanecer, transcende.

Second Life

Assustei-me com a quantidade de pensamentos que se passaram na minha cabeça durante esse período. E posso imaginar quantos pensamentos não passam despercebidos e acabam se tornando ações muitas vezes inconscientes. Além disso, músicas dos mais variados estilos passeavam constantemente pela minha tela mental durante as meditações, mas o que realmente me chamou atenção foi que, a partir do quarto dia de retiro até mais ou menos o sexto dia, uma espécie de second life se instalou na minha mente toda vez que eu sentava para meditar. Pensamentos repetitivos sobre terminar a faculdade de teatro no Rio ou começar uma faculdade de medicina em Portugal vinham em looping na minha mente. E eu criava, com riqueza de detalhes, como seria minha vida se seguisse esse ou aquele caminho. E acreditava, verdadeiramente, que deveria achar uma resposta racional para aquela questão. Até que, não resisti, e marquei uma entrevista com a monja, para perguntar como poderia cessar essas criações mentais. Sua resposta, para minha dúvida, foi “… essas histórias que você está me contando são como trens. E você está na estação. Observe os trens passarem. Não embarque em nenhum trem. Deixe eles irem… Eles vão passar. Não é fácil, mas o que queremos aqui é fazer revolução. E a revolução dá trabalho. Não desista, você está no caminho certo. Só volte para a respiração, com gentileza. Seja amiga da mente. Trate a mente como uma criança. Quando você quer que uma criança faça alguma coisa, você não vai assustá-la. Pergunte se ela quer um doce."

Hot Spring

Durante nosso tempo livre podíamos tomar banho nas águas termais, o cenário era sempre de tirar o fôlego: mulheres de várias nacionalidades vestidas com sarongs estampados com florais coloridos, uma espécie de lençol que usávamos enrolado no corpo para tomar banho, compartilhavam um silêncio absoluto imersas numa água azul turquesa transparente envoltas numa leve fumaça no meio da floresta.

Crédito: Ju Ribeiro / @donajulha - Lago onde praticávamos caminhada meditativa ao ar livre

Curte a caminhada, no jogo da vida não tem chegada, só partida…

Foram poucas as caminhadas meditativas ao ar livre, pois as chuvas eram frequentes durante o período em que estive lá. Essa prática era realizada para que pudéssemos praticar mindfulness através do caminhar, para desenvolver atenção plena em cada parte do nosso pé, em cada passo. Em uma dessas meditações, me senti protagonista e espectadora de um filme impressionista. No local, havia um lago e, no centro, uma pequena ilha. Cento e vinte homens e mulheres, todos de roupas claras e leves caminhavam silenciosamente em fila, iluminados por lamparinas feitas de velas gigantes de cera de abelha que estavam estrategicamente posicionadas nos cantos dos lagos. No céu, milhares de estrelas e uma lua quase cheia que refletia nas águas. A trilha sonora composta pelo cricrilar dos grilos e pelo coaxar dos sapos era peculiar. Andávamos como um só corpo, como se as solas de nossos pés beijassem o caminho para afofá-lo e prepará-lo para quem pisasse em seguida.

Crédito: Ju Ribeiro / @donajulha - caminho que percorria diariamente para o dormitório

Anotações Monásticas

Durante o retiro era recomendado que não escrevêssemos, a não ser sobre os estudos do budismo, mas não resisti e fiz uma espécie de diário. Achei que fosse me ser útil em outras fases da minha vida e está sendo. Achei interessante compartilhar minhas intimidades mentais aqui, começando pelo…

Dia 2

E agora? Minha mente não para. E eu não posso mesmo querer que ela pare. A natureza da mente é essa. Eu tenho que parar minha mente. Focar minha mente. Mas como fazer isso? É para isso que você está aqui, não é? Para aprender a controlar a mente, mas antes de controlá-la, você tem que saber quem a controla.

Sabe quando você está querendo tanto se conectar com o presente e essa conexão não acontece? Parece que essa conexão entre o presente e você, através do querer, afasta o estar. O estar, por si, não inclui nenhum querer. Se quero, já não estou. Pois o sujeito que quer já está tomando um lugar. O estar não imbui nenhum sujeito. O músico torna-se música, o dançarino torna-se dança e o escritor, escrita. É como um estado de ser derretido. A unção entre tempo e espaço. E nesse tempo-espaço não há querer, não há vir a ser. Ser ou não ser, não é a questão.

A equação é exata e simples. Treinamento, foco, disciplina e continuidade. Será que dá pra colocar tudo numa caixinha? Será que dá para acreditar em todas as nuvens que passam na sua cabeça?

Quando eu ouço certos mestres falarem que você não tem que buscar ser iluminado, você já é iluminado eu sempre fiz cara de “aham”, mas o que percebi é que enquanto você pensa no que você poderia ser quando chegar à iluminação, você está direcionando sua atenção para o “quando você for” e não está sendo. A iluminação é simples. Tão simples que a gente não acredita que seja só isso. Ela consiste em um estado desperto. Num estado de derretimento no momento presente. Num dizer sim para o momento presente.

Dia 3

Achar o caminho do meio para mim é complexo. Achava que o caminho do meio consistia na gangorra entre o oito e o oitenta, mas agora vejo que existe de fato um caminho do meio Not too tight not too loose, dizem os monges aqui. Onde está meu caminho do meio?

Meditação é uma academia. Uma ginástica ou uma antiginástica. É constante. Não é restrita ao momento que você senta para m-e-d-i-t-a-r. Enquanto você está cozinhando, você tem que estar meditando, enquanto você está transando, você tem que estar meditando, quando você está tomando banho, você deveria estar meditando. Mas, então, para que a gente senta e medita? Para esclarecer a gramática do pensamento, para aprender a linguagem da mente. E assim, ser capaz de catch her enquanto você está fazendo qualquer outra coisa. É trazer sua atenção para o agora, para que você possa ter o insight de voltar para o momento presente. Agora. E toda vez que você perceber que sua cabeça te levou para algum lugar que não seja este que você está, fazendo o que quer que esteja fazendo, traga sua atenção para a respiração. Para o agora.

Dia 4

Quando olho uma fila de formigas, a única coisa que penso é “espero que elas não estejam saindo do meu quarto”.

Hoje minha concentração está pior que ontem. Como aconteceu no Vipassana. Lá vai eu me comparando com o passado.

Os primeiros dias foram mais fáceis em relação aos últimos. Normalmente, para todo mundo acontece o oposto.

Não consegui dormir direito.

Você tem que entender uma coisa: Você não vai conseguir resolver nada racionalmente.

Dia 5

Sonhei que estava num lugar parecido com a Irlanda, mas era quente. Estava com mais três amigas. Trocamos de restaurante e lá tinha um homem balançando em uma rede no teto. Acendi um cigarro e me perguntei em seguida “Catharina, por que você está fumando?”. Apaguei o cigarro e observei minha respiração.

Dia 6

Mais falação mental. Nada muito específico. Petrópolis, me vem muito na cabeça. A vida no Rio de Janeiro também. Será que era feliz e não sabia? Lembrei-me quando fazia muita coisa ao mesmo tempo: o vazio da vida ocupada demais. Quem foi que escreveu isso?

Dia 7

Hoje está realmente difícil. Hoje todas as certezas foram aniquiladas. Não consigo me apoiar mais em nenhuma ideia. Será que é esse o processo? As certezas precisam ser aniquiladas? "Não seja muito dura com você mesma. Esse é o processo. Pense que você está no meio do oceano e há uma tempestade. Suporte a tempestade, a calmaria vai chegar…"

Dia 8

Hoje me dei conta de como me comparo o tempo todo com os outros. Fico parecendo aquelas senhoras fofoqueiras observando como as pessoas ao meu redor estão fazendo as coisas, se estão fazendo rápido e se dedicando nas tarefas do monastério. Fico pensando onde estou em relação aos outros, qual minha velocidade em relação aos outros e, depois, esse questionamento se amplia e começo a perceber que, muitas vezes, durante meu cotidiano, fico me comparando em que estágio da vida estou em relação às outras pessoas.

Crédito: Ju Ribeiro / @donajulha - Hall de meditação principal - Onde aconteciam as principais práticas meditativas

9-Monge Day

Na noite anterior ao nono dia, onde viveríamos exatamente como um monge, dormi muito mal. Talvez pela ansiedade de saber que teríamos somente o café-da-manhã e nada das palestras que participávamos normalmente. Praticamos nosso yoga matinal como de costume e mais três horas e meia de meditação silenciosa ininterrupta.

Era possível escolher o local para a prática meditativa. Sentei no meio do campo aberto e decidi que ali passaria minhas três horas em meditação. Não foi nada fácil, algumas músicas cismavam em permanecer na minha cabeça e quando elas iam embora, pensamentos dos mais variados tipos emergiam. Até recitar Hamlet para a árvore eu recitei! É impressionante a quantidade de artimanhas que a mente inventa para te tirar do foco. Ela não suporta te ver em silêncio.

Não importa quantas vezes a mente voou por ai. Cada vez que você perceber que ela se movimentou, gentilmente traga-a de volta para a observação da respiração. Não é simples.

10-Último Dia

Do primeiro dia até o último senti muita diferença na minha presença no espaço e percebi minha mente como um músculo que tinha acabado de voltar da sua primeira semana de academia.

Na última noite, várias velas foram acesas no corredor do Hall de Meditação que dava para uma espécie de altar, onde os monges faziam palestras diárias sobre budismo. Mas, esse seria um dia especial. Nós estudantes é que iríamos dar nosso testemunho da experiência desses dez dias. Ouviríamos nossa voz e a voz do outro depois de todo esse tempo em silêncio. O valor das palavras mudou, tomamos mais cuidado ao falar para não infringir a prática budista da não violência. Os testemunhos foram muito marcantes e vimos muitas semelhanças no processo de cada um, e claro… dificuldades. E elas passaram. Escolher permanecer silencioso, imóvel, observador da própria mente apesar de todos os desafios é transformador. E foi aí que percebi, como disse no início do texto, a importância da permanência nesse espaço interior. E somente nele, já que segundo os ensinamentos budistas tudo passa, tudo é impermanente. E não devemos nos apegar a nada que não seja definitivo. E a única coisa definitiva no budismo é o princípio da impermanência. Aceitar a mutabilidade é aceitar a vida do jeito que ela é. Gostaria de estar no campo, mas no momento o que é possível para mim é estar na cidade. Às vezes nosso caminho faz curvas, damos alguns passos para trás para poder caminhar mais longe depois… Acima de tudo temos que aceitar a realidade do jeito que ela se apresenta e, simplesmente, estar presente. Se foco no futuro, não vivo o presente na cidade e quando estiver no campo, tampouco saberei viver por lá e inventarei um terceiro ambiente. Assim, como um burro que corre atrás da cenoura, nunca acharei a felicidade. Ser feliz independe do lugar, é o estado primordial do ser humano.

Quero deixar evidente meu agradecimento à Ju pelas fotos. Uma carioca maravilhosa que conheci no monastério logo antes de começar o retiro. Se não fosse por ela, não teria nenhum registro desta viagem interna na Floresta Tailandesa e poder contar pra vocês um pouco desse retiro espiritual.

Para incetivar sua viagem rumo a você mesmo, tem mais um relato incrível aqui

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Photo by Celso Filho

Ana Catharina França é instrutora de yoga e meditação, produtora cultural, atriz, artista visual, peregrina e buscadora de si. Em suas aulas de yoga orienta qual a melhor forma de unir a correria das grandes cidades e a prática de mindfulness.

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