• Do Rio pra cá

Um novo carimbo no meu passaporte: Marrocos

Atualizado: 6 de Out de 2019


“A vida se contrai ou se expande de acordo com a coragem de cada um” disse Anaïs Nin e este ano surpreendentemente me vi passeando por estes dois estados ao passar por uma experiência profissional bastante audaciosa e cheia de novas possibilidades, inclusive a de obter um novo carimbo no meu passaporte: Marrocos.

Morando em Buenos Aires, aceitei o convite para uma macrossérie a ser filmada metade em Paulínia (interior de SP) e metade em Ouarzazate (interior do Marrocos) como já falei aqui.

Mochila nas costas, curiosidade nos olhos e coragem no peito, lá fui eu numa nova aventura consciente das possíveis consequências emocionais e afetivas que essa escolha poderia me trazer.

Começamos a jornada pela parte internacional, com muitos “poréns” por conta da cultura local.

Como se sabe, no Marrocos existe uma bolha sexista de machismo extremo e que estando lá pude senti-la de maneira muito concreta e palpável.

Todas nós mulheres fomos aconselhadas previamente por parte da produção a não sairmos sem a companhia de um homem, e a sempre mantermos os ombros cobertos. Roupas coladas que marcassem nosso corpo não eram bem-vindas para nossa própria segurança.

Por mais que existisse um encantamento de estar num polo importantíssimo do audiovisual internacional, gravar em locações onde foram filmados Game of Thrones e muitos filmes de Hollywood, o contraste com a simplicidade dos locais deixava minha alma desajustada.

Ouarzazate é uma cidade pacata, a 4horas de carro de Marrakesh. Quem aí pisa ou é porque está a caminho do Deserto do Saara, ou porque está aí filmando algum filme ou série.

Tudo era muito diferente de tudo que eu já tinha experimentado como viajante, turista, atriz-cigana.

Uma cidade toda terracota, onde mulheres em sua maioria andam com batas até os pés e lenços que escondem seus cabelos.

Homens que andam de mãos dadas entre si e que frequentam mais as ruas do que suas esposas.

Independente da idade, é gritante a precariedade de cuidados de higiene bucal e pessoal em todos eles.

Foi muito difícil não poder praticar lá a minha liberdade de ir e vir tão natural no meu país. Minhas amigas e eu dependíamos sempre da boa vontade de algum rapaz do elenco ou da produção para nos acompanhar na rua, fôssemos para o mercado ou farmácia.

Tão difícil quanto a minha dificuldade em entender o berbere (um dos idiomas locais) ou o francês deles.

Lembro-me de um dia em que estava na fila de um supermercado esperando para pagar minhas compras, até que num momento de distração, um homem fura a fila e se coloca descaradamente na minha frente.

Naturalmente me saiu a submissão e o silêncio das mulheres locais diante daquele episódio. Todo o meu sangue ardia de ódio por dentro por aquele homem que me objetificou, que me diminuiu com aquele simples ato.

Nada diferente de um outro dia que comprando uma Coca-Cola numa vendinha acompanhada de um amigo, o vendedor se recusava a me entregar o troco, dando o dinheiro nas mãos do meu amigo.

Foram tantos contrastes, tantas noites de frio extremo e umidade baixa, que como qualquer ser humano, entrei em abstinência do meu próprio país. Do meu Rio, que mesmo imperfeito, de alguma maneira ainda me violenta menos do que aquela realidade marroquina.

Depois de um respiro em Paulínia, voltamos em Maio à Ouarzazate e dessa vez tivemos um novo agravante: o Ramadã. Período de um mês de jejum, ritual feito uma vez ao ano pela maioria dos muçulmanos, sempre no nono mês do calendário islâmico.

Na prática, eles começavam a jejuar as 5am até as 19hs… quando o sol se põe. No ínterim... nada de comida, água, cigarro ou sexo.

Se agora a temperatura estava muito mais proveitosa com média de 34 graus e muito sol, o Ramadã nos trouxe um incômodo não esperado, já que durante este período apenas 3 restaurantes da cidade funcionavam em horário normal.

Como sempre digo, conhecer um lugar como turista em poucos dias é uma coisa, e viver este mesmo lugar por mais de um mês pode te fazer amá-lo ou odiá-lo para sempre.

Eu que amo comer qualquer coisa, me vi muitas noites jantando biscoito porque já não aguentava tanto cominho nas comidas marroquinas.

Óbvio que existiu deleite, prazeres, conexões com gente local... sorriso no coração e gratidão no peito por poder ver de perto tanta beleza natural, camelos, artes de cerâmica, aromas, cores e bordados, azulejos trabalhados... chazinhos, bijuterias escandalizastes e tapetes por muitos sonhados.

O convite bacana dessa experiência foi me olhar através de tudo aquilo. Foi me perceber tão fechada à percepção de “mundo” do outro e por outro lado, arrebatada pela grandiosidade de acesso à beleza da Vida que essas viagens me proporcionam.

Não se engane, hoje para mim, beleza não é necessariamente o “belo”, senão a maravilha que é poder sentir tudo o que passível de nos emocionar.

Dispositivos que vão desde uma rua de terra, um olhar inocente, um sorriso banguelo, a textura de um sari, o aroma de um cuscuz.

Estar vivo é sentir a Vida acontecendo.

E é por isso que eu vou caminhando e cantando e seguindo a canção.

Seja por vontade própria ou através de um trabalho, me mostrando pra Vida e a ela me colocando à disposição.

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