• Dani Paiva

O terceiro lockdown em Londres

Atualizado: Jan 28


Image: Shutterstock

Nesse domingo que passou, dia24, os londrinos respiraram uma timeline (linha do tempo) diferente nas suas redes sociais e na permitida saída de casa para exercitar.


O dia foi coberto por belíssimas imagens da neve que caiu no país como um manto de alívio nas tensões do isolamento. Nevou até em Londres, o que é raríssimo. Ao longo desse inverno duro, a meteorologia ameaçou e frustrou várias vezes as expectativas do povo que ama o clima sorvete de flocos. Eu, incluída.


Domingo, dia 24, não tivemos novo anúncio do governo (barulho de suspiro). É tarde da noite, e ganho mais umas horinhas de magia das memórias recentes desse dia branco, ainda que elas sejam em sono.


Aqui é assim, essa montanha-russa de medidas e previsões. No anúncio do terceiro lockdown com as regras de combate à Covid-19, a perspectiva era de isolamento em alerta nível alto até meados de fevereiro. Agora já se comenta a probabilidade grande de seguirmos assim até abril, maio.


As notícias sobre a vacinação como já falei aqui, abrandam a pressão sobre esse governo que adora prometer e retificar a promessa em questão de horas. Em meio às polêmicas sobre a rapidez das ações e as diretrizes do poder, a imunização traz muita, muita esperança.


A sensação dos brasileiros que vivem aqui nesses tempos é de gratidão. Diante do atual cenário do Brasil, somos, sabemos e nos sentimos privilegiados por pelo menos termos um governo que claramente está de antena ligada e busca estratégias gratuitas e em massa de luta.


Image:istockphoto

Mais de cinco milhões de pessoas receberam a primeira dose. A meta é chegar a 15 milhões em meados de fevereiro para a faixa de pessoas acima de 70, trabalhadores de saúde e de casas de idosos.


Lembrando as regras de isolamento: saídas apenas para exercício ou compras essenciais, lojas consideradas não-essenciais fechadas, assim como, bares e restaurantes, bolhas de suporte limitadas a uma pessoa sozinha em contato com uma outra casa, escolas e universidades em formato virtual apenas.


Ah, sim, e claro, viajar apenas em último caso ou emergência. Em relação ao Brasil, voos diretos não pousam mais por aqui, ou seja, só dá para desembarcar em solo brazuca via hubs, ou seja, portas de entrada para a Europa.

Até a possibilidade de vir pra cá via Portugal não existe mais. A partir deste 29 de janeiro, o governo português proibiu voos de e para o Brasil. A promessa é rever essa medida em 14 de fevereiro. Quem chega e entra, como residentes e britânicos, no Reino Unido precisa se isolar por 10 dias.


Enquanto escrevo, tudo pode mudar amanhã, no dia seguinte ou a qualquer minuto. Medidas restritivas devem surgir para impedir, principalmente, a entrada de novas cepas do vírus no país. A pressão para apertar o cerco contra a disseminação é imensa.


Nesta segunda-feira, 25 de janeiro, o Primeiro Ministro diz que vai rever os números até 15 de fevereiro e pode relaxar algumas regras. A pergunta é: quem acredita?


A questão é que as pessoas estão cansadas da falta de contato social e começam a optar conscientes por quebrar as regras e correr riscos. No final de semana, um grupo de jovens sem máscara perambulou pela minha rua bebendo e conversando alto. Me imaginei em uma cena do tipo senhora berrando da janela e jogando um balde água na cabeça da criançada para dispersar o furdunço.


Também no fim de semana, a polícia baixou em uma festa em Hackney, bairro hipster de Londres, com mais de 200 pessoas e distribuiu multas de £200. É pouco? Deveriam ter sido presas? Uma lição de moral do tipo ‘meu irmão, você não pensa nenhum pouco no outro’?


Penso em como é ser jovem, vigoroso e cheio de descobertas e prazeres frente a uma pandemia. Sem poder tocar o que é viver a belezura dos 20 anos. Penso na falta de contato social e normalidade para as crianças. Qual será o efeito disso?


Foto da minha querida amiga Dina Ipavic, isolada em Cornwall (Cornualha)

Sabe essa mudança que falei aí acima? Acabou de acontecer para mim enquanto completo esse texto. Recebi a notícia de que meu pai pegou Covid-19 no Brasil em Cuiabá. Minha mãe contraiu a doença no comecinho da pandemia no Rio de Janeiro e o vírus percorreu seu trajeto sem grandes efeitos. Meu pai cuida e lida diretamente com meus avós na casa dos 90, é diabético e tem arritmia, mas sua saúde é bem boa apesar dessas condições.


Papai esteve em um hospital semana passada para acompanhar meu avô de 95 anos em uma cirurgia de retirada de um câncer de pele. Protelou a intervenção médica até o limite por conta da pandemia. Pegou a diaba por lá.


Meu pai, e eu aqui, longe. Essa coisa de estar longe em tempos de Covid-19. Fica para outro texto.


Falei com papai tentando traçar uma estratégia para proteção dele e dos meus avós. O que posso fazer é apoiar, aconselhar e pensar junto.


Meu pai está com sintomas leves – dor no corpo, moleza, sensação gripal. Mas, meu avô tossiu noite passada, o que nunca é um bom sinal nessa idade e assusta. Essa doença nos leva a confrontar o medo em diversas formas, e ele anda poderoso que só.


Aí vem a saúde dos dois, espero, dois tourinhos curtidos no amor e nas ervinhas e chás da minha avó baiana. Meu pai masca alho e cravo todo dia há milênios. Meu avô chegou até aqui muito por conta de exercícios, gotinhas de própolis e boldo.


Gente do bem, sabe? Do bem mesmo, que olha para o outro, ouve, abraça, ajuda, afaga, é generosa, de muito toque, amor e humanidade. Você pode argumentar que meus avós são velhos, viveram muito e tal. Mas que passagem gostaria para eles? Que passagem gostaria para mim? Para as pessoas que amo? E como lidar com essa passagem? Na carne, perto, olho no olho, é diferente das nossas crenças e reflexões.


A Covid-19 veio para levantar uma porrada de questões. Isso é certo. E para nos obrigar a pensar nelas com profundidade e de forma evolutiva mais do que passiva, a fazer, como disse uma amiga hoje, um trabalho interno necessário. Tacou na nossa cara a finitude, a mortalidade, o legado, o presente, o porquê.


Também veio nos ensinar a ser mais tudo isso aí que falei dos meus avós. Uma sabedoria que não entrou na conta das mudanças maravilhosas, dos avanços, das coisas boas da contemporaneidade.


Porque esses tempos modernos nos deixaram loucamente egoístas, preocupados, estressados, desatentos e pouco doadores. Já sabíamos de tudo isso né? Esse mundo líquido e consumista. E continuamos sabendo, não continuamos?


Talvez o desafio, o challenge (desafio) como gostam os britânicos, é como sermos mais humanos e melhores para lidarmos com todas as distâncias e dificuldades em uma situação desumana, quando perdemos o privilégio da liberdade e temos a tecnologia. E quem diria que a liberdade era um privilégio. E quem não diria.


Ah, sobre a foto da minha querida amiga Dina Ipavic, Cornwall (Cornualha), está nos meus destinos imediatos de escapada assim que pudermos transitar internamente pelo Reino Unido.


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